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#782

Pedro Simão Mendes, em 08.03.17

acordei.

adiei o despertador uma e outra vez, na ingénua ideia de que aqueles cinco minutos poderiam fazer a diferença no meu descanso. quando finalmente me decidi abrir os olhos, ver a luz de um novo dia, desliguei o despertador e liguei os dados. é aquela dependência crescente de estar sempre ligado numa rede, virtual, cada vez mais longe das pessoas de verdade.

então, um turbilhão de mensagens de que não estava à espera inunda-me o ecrã. uma conversa de grupo de amigos de infância, e uma amiga com quem não estou há anos. li primeiro a última, porque era apenas uma mensagem, e a conversa de grupo era mais longa. "sabes o que aconteceu com A.?" e foi então que, ainda sem o saber, o pude adivinhar. é estranho que tenha sido a primeira ideia a passar-me pela cabeça, mas a conversa de grupo confirmou as minhas suspeitas. A., amiga de infância que (sabia eu) fora diagnosticada com bipolaridade e tinha problemas psicológicos há bastantes anos, suicidara-se.

é também estranho perceber, pela conversa, quão os detalhes do passado escapam a determinadas pessoas. mas a memória é mesmo assim, com tendência de nos lembrarmos mais daquilo que é mais importante para nós. e eu sempre dei importância aos detalhes, sobretudo quando conto histórias. sinto que cada detalhe conta. é a única forma de contextualizar a história que conto, tornando-a o mais fidedigna possível ao que realmente se passou. mas depois torno-me aborrecido a contar o que quer se seja - toda a gente mo diz. e portanto, os detalhes, para a maioria das pessoas são isso mesmo: meros detalhes.

é uma notícia triste. mas, invariavelmente, processo-a racionalmente e não emocionalmente. na verdade, há muito tempo que não falava com A. encontrei-a no verão passado, penso. não posso dizer, aliás, que éramos amigos. mais conhecidos de longa data. sempre que nos cruzámos, ao longo dos anos, as nossas conversas sempre tiveram tendência para roçar o deprimente. por isso mesmo, racionalizando toda a notícia, pareceu-me, de certa forma, expectável que isto viesse a acontecer, eventualmente. parece-me mais triste, portanto, a consciência de que uma pessoa se possa encontrar tão miserável ao ponto de não ver outra solução possível para os seus problemas além da morte. parece-me, portanto, cada vez mais importante promover a sensibilização para a importância da saúde mental, e para combater a estigmatização associada com as perturbações psicológicas e psiquiátricas.

o dia está solarengo. fui nadar antes de vir trabalhar. aproveitei para fazê-lo tranquilamente, sem pressas. o sol na água deixava um rasto de alguns arcos-íris que oscilavam de forma inconstante no fundo da piscina. a água estava quente. tive oportunidade para pensar em tudo isto, e em como a vida é, na maioria das vezes, ridícula. é a forma como todos questionamos se fará sentido viver assim, num quotidiano de correrias e exigências que nos parecem perfeitamente naturais, mas que geram dúvida sobre onde estará a nossa humanidade, e sobre o que é, de facto, mais importante. mas ninguém muda necessariamente o que quer que seja.

é só mais um dia solarengo como outro qualquer. porque a vida, aqui onde estamos, não espera por ninguém.

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às 11:33




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