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15h40

Pedro Simão Mendes, em 03.01.13

este texto tem o título de "eram quinze horas e quarenta minutos certas" e foi escrito em maio de 2011, já nem sei bem porquê.

 

     «eram quinze horas e quarenta minutos certas, salvo seja, se haverá horas certas, que as quinze horas de Portugal não são as quinze da América, ou sem necessidade de voar tão longe, não serão essas horas as mesmas que são as quinze da Dinamarca, e mesmo por mais certos que andem os relógios, há sempre um segundo ou outro que falha, porque o tempo é infinito na sua divisão, e tal como há segundos, há décimas destes e suas centésimas e milissegundos e por aí fora, que a matemática ensinou-nos a compreender que por mais pequeno que algo seja, poderá sempre ser mais pequeno do que é agora. e a tal regra não foge o tempo. mas o mais surpreendente é que sendo infinito o tempo, há-de se acabar para cada um de nós, que cada um na nossa vez haverá, eventualmente, de morrer. é assim que se nos acaba o tempo, morrendo. e o que existirá depois, ninguém o sabe, ou pelo que me disseram, ninguém voltou para o contar.

     eram quinze horas e quarenta minutos, mais segundo, menos segundo, assim sim, senão de nada serviria a explicação supra apresentada, quando rasgou o céu o primeiro relâmpago que deitou abaixo a luz de toda a casa. deitar a luz abaixo não será, de todo, a expressão mais adequada para descrever a falha de corrente eléctrica que se dá numa habitação aquando a ocorrência de uma ocasional tempestade. será uma luz capaz de deitar outra abaixo?, entendendo-se deitar abaixo, neste caso, como apagar, ou por outras palavras, será uma luz capaz de apagar outra?. dir-nos-á a ciência que não, que uma luz não apaga outra, mas se for, em relação a ela um pouco mais forte, mais intensa, poderá abafar a anterior, isto é, dissimular a anterior, a fim de se fazer notar, existindo ambas ao mesmo tempo, uma sobre a outra, a mais forte sobre a mais fraca, escondida da nossa vista, ou fundindo-se ambas numa, escondidas as duas, noutra que nos confunde o olhar. mas a linguagem corrente traz-nos essa expressão e como a ela já estaremos acostumados, porque não havemos de a utilizar?. rasgou o relâmpago o céu, àquela hora, como se dissesse que a sua própria luz haveria de reinar sobre todas as outras, apagando-as assim, a seco, sem chuva nem nada que caísse do céu, só por breves minutos, que dali a nada estaria a chover como chove no fim do mundo, com relâmpagos atrás de relâmpagos e trovões atrás de trovões, acompanhados por ventanias tais, quase capazes de arrancar da terra árvores robustas pelas raízes.

     e como sabes tu como chove no fim do mundo?, hão de perguntar, e eu hei-de responder que não o sei, mas que o diz muita gente, entre os quais a minha tia-avó e o meu falecido bisavô, talvez por crença cega nas palavras metafóricas do evangelista s. joão, no livro do apocalipse da bíblia católica, sem entenderem o que são metáforas, porque não puderam andar na escola, ou não queriam lá andar, que de cada vez que iam, era por causa das vergastadas que levavam nas pernas e não devido ao interesse em aprender o que outros queriam que eles aprendessem. e muitas vezes ouvi essa tia de minha mãe dizer sobre certas tempestades, que eram sinais do fim do mundo, que se aproximava uma e outra vez, e outra vez, e outra, e outra, chamando-me filho, ou homem de deus, coitado de mim, que devia temê-lo, sendo os relâmpagos seus castigos, os trovões sua voz repreendendo-nos por todo o mal que fizemos, e eu não percebia essas nomeações que me dava, que ela não casou nem tampouco teve filhos e deus, como me ensinaram, só teve uma mulher, que nem era dele, mas do outro, carpinteiro, e duvido, portanto, que jogasse na outra equipa, que tivesse um homem como seu companheiro, nem igualmente eu jogo nessa equipa e já tenho eu minha mulher, não querendo outra nem homem algum, muito menos deus, que de ouvir dele falar já me chateia, chegaram-me os onze anos de catequese que fiz e as vezes que fui à missa ao domingo de manhã. não querendo, com isto, ofender os que nele acreditam e respeitando as suas crenças, apesar de não entender muito bem como é que acreditar nalgo, ou nalguém que não se vê nos ajuda a suportar o dia a dia, uma vez que, pelos conhecimentos que me foram dados ao longo daqueles onze anos, deus não passará de uma personificação do bem, e, penso eu, para praticar o bem, se soubermos o que isso é concretamente, que não o sabemos e ninguém o sabe, não será preciso rezar ou fazer rituais semanais e anuais, para que ele, salvo seja, nos guarde um lugar lá em cima, ao pé dele. não fossem essas razões, por si só, egoísmo quase puro, havemos de fazer o bem, sim, mas tendo em conta que nos fará mais felizes, bem connosco e com os outros, fomentando as nossas relações sociais de forma saudável, como seres sociáveis que somos, nós, os seres humanos, mesmo existindo outros de nós que prefiram praticar o mal, que desses sempre os houve, nos diz a História, ainda os há, e os há-de haver até ao fim dos tempos, talvez porque gostarão mais de praticar o mal do que praticar o bem, ou porque o que é mal para nós será o bem para eles. mas tudo isto não passam de devaneios sem sentido.

     chovia como provavelmente choverá no fim do mundo, e choveu assim, durante três quartos de hora seguidos, mais segundo, menos segundo, e só depois a tempestade acalmou.»

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às 22:16

O homem que tinha medo de desaparecer

Pedro Simão Mendes, em 03.01.13

Prólogo de "O homem que tinha medo de desaparecer", conto escrito em 2010 para um concurso literário. reconhecendo que a ideia era boa, mas que o conto estava muito aquém do que poderia estar, resolvi reeditá-lo em 2011, mas esse projeto ainda não viu a luz. este é o prólogo original, portanto.

 

 

 

«– Já alguma vez pensaste em como seria o mundo, caso desaparecesses, de repente?

– Não. Nunca…

– Eu já. Penso muitas vezes, aliás… A quase todos os momentos. É bastante estranho, sabes? Imaginar a vida das pessoas que conheces, ou melhor, as que te conhecem, sem ti.

Estavam deitados, frente a frente, muito juntos. Acabavam de fazer amor e olhavam-se intimamente, apaixonados, quando ela quebrou o silêncio com a pergunta. Enquanto continuava o seu raciocínio, voltou-se para o tecto, como se este fosse uma tela onde era capaz de visualizar nitidamente os seus pensamentos. Ele manteve-se junto dela, contemplando-a a cada olhar.

– Os meus pais, perdidos num desespero qualquer, correriam de cada vez que o telefone tocasse, esperançosos que fosse eu, vivendo cada dia atormentados pela ideia de nunca mais me poderem abraçar, ou dizer o que quer que seja. Talvez arrependidos de muitas coisas que já me disseram; A minha irmã, com saudades, mas consciente que eu não voltaria para apoiá-la, talvez se deitasse na minha cama, de vez em quando, abraçando as minhas almofadas, imaginando-me no lugar delas; E todas as pessoas que conheci nos lugares onde estive continuariam a sua vida normalmente, sem sequer saber que eu desaparecera…

– Pensas demais, sabias? – Disse-lhe, sussurrando.

– Eu sei, estás sempre a dizer-mo. – Respondeu, voltando-se para ele. Beijou-o suavemente. Tocou-lhe a ponta do nariz com o indicador, sorriu e levantou-se da cama.

– A tua mãe deve estar a chegar. – Acrescentou.

Ele não respondeu. Limitou-se a contemplá-la por inteiro, porque, agora, o seu olhar percebia todo o seu corpo. Ela estava junto à janela, nua, a espreitar a rua molhada, lá em baixo, voltando-lhe as costas. Então, ele levantou a mão esquerda e delineou as curvas do seu corpo, desde a cabeça até aos pés.

– És perfeita. – Disse-lhe.

Ela ficou extremamente sensibilizada, porque as suas palavras valiam muito mais do que ele poderia imaginar, mas não o mostrou. Em vez disso, chamou-lhe tonto e deu-lhe uma palmada. Ele não se ficou e saltou da cama, para lhe fazer cócegas. Estavam ali, entre risos e sorrisos, totalmente despidos, quentes, longe do inverno que fazia lá fora. Estavam ali, perdidos, num lugar bem conhecido, entre risos e sorrisos que não eram mais que pura felicidade.

– Sabes que isto não vai durar, não sabes? – Interrompeu.

Olhou-a nos olhos, sempre com um sorriso e respondeu:

– Sei, sim. Mas tento não pensar nisso. Além disso, o que interessa é o presente, o agora. E olha quão bem estamos. Esse teu sorriso não me engana.

– Obrigada, Chico. Por todos os momentos maravilhosos que passámos juntos. Por me voltares a fazer rir com vontade.

Ele desviou brevemente o olhar e ela sabia o porquê. Estava novamente a pensar demasiado nas coisas. Devia deixá-las «seguir o seu curso natural», como ele sempre lhe dizia. Não voltou a mencionar o assunto, deixando-o morrer por ali. Então, sugeriu:

– Queres passear lá fora?

– Com esta chuva?

– Sim, porque não?

– E o cabelo, e a roupa molhados? A menina já não pensa nas consequências?

– Não, agora não. Agora não é altura para pensar. – Conclui, sorrindo.

Vestiram-se calmamente. Desceram até à porta de entrada do prédio e, mesmo antes de saírem, ele puxou-a para junto de si.

– Amo-te. – Disse. E beijou-a, segurando-lhe o rosto.

E saíram, finalmente, de mão dada, caminhando lado a lado, debaixo da chuva fria que caía, leve, naquele fim de tarde invernoso.»

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às 22:09

#436

Pedro Simão Mendes, em 03.01.13

ui, que andei a vasculhar umas coisas pendentes que tinha por aqui... já vos mostro o que andei a desenterrar!

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às 22:04

#435

Pedro Simão Mendes, em 03.01.13

como foi dito aqui há algum tempo atrás, faço o registo estatístico daquilo que escrevo. na altura (maio 2012) tinha um total de 385 textos escritos. agora que 2012 terminou, fiz um balanço do que escrevi ao longo do último ano: 101 textos/poemas.

hoje, 3 de janeiro de 2013, conto com 455 textos da minha autoria que, bons ou maus, me deixam orgulhoso.

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às 21:39

#434

Pedro Simão Mendes, em 03.01.13

vontade para fazer algo útil, precisa-se. o ano mal começou e já estou a adiar demasiado tudo o que tenho para fazer.

estas serão as últimas semanas do semestre, em que me deveria esforçar ao máximo para subir as notas. mas está a custar tanto, que nem imaginam!

 

vou só ali (provavelmente fazer algo inútil) e já volto.

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às 21:25



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