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Alice

Pedro Simão Mendes, em 07.02.13

     Alice, com apenas nove anos de idade, era uma violinista talentosa. Tocava violino todos os dias e tinha até criado uma rotina. Sempre que chegava a casa, vinda da escola ou da casa da avó, já perto da hora de jantar, tocava sempre a sua melodia preferida que aprendera nas aulas de violino. Quando chegava e o jantar já estava pronto, esperava ansiosamente o final da refeição para logo ir pegar no seu instrumento e dar-se à música. Os seus pais adoravam e aplaudiam-na sempre que a escutavam.

     Alice era filha única e os seus pais trabalhavam juntos num restaurante que era da família da mãe. Havia, por isso, alguns conflitos familiares que eram transportados para o negócio e vice-versa. Alice ouvira diversas discussões entre os pais enquanto tentava adormecer escondida entre os seus cobertores e assistira, aliás, a outras tantas à hora de jantar, altura em que passava algum tempo com eles.

     Naquele dia, a discussão fora pior do que estava habituada. O pai insultava a mãe como ela nunca tinha ouvido antes, com palavrões e tudo, chamava-lhe incompetente e dizia que era tudo mal de família. Alice não compreendia o porquê de ele dizer tais coisas, até porque ela gostava muito do tio Zé, da tia Inês e da prima Ana, e dos outros todos. E achava que o pai também gostava muito deles. A sua mãe chorava e, embora permanecesse quase sempre calada, soltava argumentos no ar que, em vão, atingiam os ouvidos do marido. No final, o marido fechou-se no quarto e Alice e a mãe terminaram o jantar em silêncio, apenas interrompido por um ou outro soluçar que a segunda emitia.

     Perante isto, e sem saber muito bem como reagir, Alice abraçou a mãe e disse-lhe que gostava muito dela. De seguida, perguntou se se pode levantar da mesa, ao que a mãe acenou afirmativamente. Alice correu para o estojo do seu violino, abriu-o e retirou de lá o seu precioso instrumento. Encostou-se à janela e, enquanto olhava o céu escuro lá fora, tocou a sua música preferida, aquela que tocava todas as noites. Só que no final, ninguém aplaudiu.

 

escrito a 07.02.2013

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às 23:18



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