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da calvice

Pedro Simão Mendes, em 26.07.18

há cerca de duas semanas, fui ao cabeleireiro. um daqueles estabelecimentos junto à universidade, por ter um preço que considero mais ou menos justo para um corte masculino. foi a segunda vez que visitei aquele estabelecimento e, também pela segunda vez, me alertaram para o facto de o meu cabelo estar enfraquecido. resumidamente, estou a ficar careca. são os trinta quase a chegar, ou a vida deprimente dos meus últimos dez anos a ter impactos notórios no meu organismo.

o interessante para estar a escrever sobre isto, surge sobre a abordagem que me fizeram para realizar um tratamento. da primeira vez, o jovem que me cortou o cabelo sugeriu que o tratamento que lá tinham tinha efectivamente resultado no seu pai, com não só a redução da queda do cabelo, como crescimento de novo cabelo. para escapulir-me daquela abordagem de venda, disse que ia pensar no assunto. ora, como eu sou um gajo céptico, decidi fazer uma pesquisa sobre tratamentos para a calvice.

o que descobri? este artigo da deco, que resumia bastante bem os tratamentos que resultam daqueles que são treta. na verdade, parece-me que quase tudo o que é oferecido por aí, é treta. também conversei com colegas que tinham recorrido a tratamentos para a queda de cabelo, que me disseram que "sim, funciona!". mas estes testemunhos só me remeteram para o efeito placebo. efectivamente, a revisão de literatura sobre tratamentos da queda de cabelo mais recente que encontrei data de 1999. podem lê-la aqui, mas vai de encontro ao descrito no artigo da deco. os tratamentos médicos que demonstraram alguma eficácia são realmente o minoxidil e a finasterida. no entanto, para estes tratamentos, deve sempre ser realizada uma avaliação médica. e os resultados nem sempre são claros.

paralelamente, encontrei um artigo pseudocientífico que me assustou um pouco: apesar de mencionar os medicamentos que resultam realmente, propõe o uso de produtos "naturais". este artigo tem várias coisas que levantam dúvidas no propósito para que foi escrito: 1) cita a bíblia, sem razão aparente para o fazer; 2) cita referências de investigações acerca dos medicamentos conhecidos, mas não apresenta referências para a eficácia descrita de todas as ervas propostas e defendidas; 3) falta de linguagem científica na parte acerca das ervas (e.g., "Here we take a look at some of the herbs that are believed to reduce the rate of hair loss and at the same time stimulate new hair growth"); 4) baseia-se na fama e popularidade no uso destes produtos naturais têm tido para argumentar a sua eficácia, o que constitui uma falácia argumentativa. enfim.

também a (tentativa de) argumentação para me venderem um tratamento para a queda de cabelo falhou. desta última vez, o corte, e a abordagem foram realizados pelo próprio dono do estabelecimento, o pai que realizou, ele próprio, o tratamento. mencionar o assunto foi fácil, logo quando começou o corte:

-devias fazer alguma coisa em relação a isto - começou, referindo-se ao meu cabelo fraco.

e eu disse:

-eu sei, mas tudo o que li sobre o assunto me diz que os tratamentos não resultam.

bastou esta frase para o senhor mostrar irritação e alterar o tom de voz. pensei que esta afirmação poderá não ter sido realizada na melhor altura, já que o senhor me estava a cortar o cabelo. ele balbuciou algo sobre eu fazer muito mal em não confiar. eu disse que era investigador (na tentativa de justificar o meu cepticismo), mas ele disse que daria um péssimo investigador, por não acreditar. e foi buscar uma revista de há três anos atrás. folheou-a até encontrar uma foto sua, dizendo:

-estás a ver? olha como eu tinha o cabelo, e olha como estou agora!

vi que, aparentemente, o seu cabelo estava mais forte. não me pareceu, contudo, que lhe tivesse crescido mais cabelo naquela zona. tentei apaziguar-lhe os ânimos, dando-lhe o benefício da dúvida:

-pois, realmente nota-se alguma diferença. também tive colegas que me disseram que resulta. se calhar, é uma questão de experimentar...

-mas olha que se não acreditas, também não adianta fazeres tratamento nenhum. - interrompeu. e foi aqui que toda a lógica lhe caiu por terra. e eu desisti de continuar a conversa.

resumindo, o senhor acabou por me dizer que é preciso acreditar que algo vai funcionar para que funcione mesmo, o que é um simples efeito de sugestão. no fundo, como toda a pseudociência (aqueles produtos para emagrecer, e coisas assim, sabem?).

apesar de a calvice não me atrair muito, sinto que terei de a abraçar e assumir em pleno.

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às 11:42




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