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da (minha) bissexualidade 1/2

Pedro Simão Mendes, em 17.05.18

   tenho esta ideia na cabeça há já algum tempo, e tenho tentado (sem sucesso) escrever um bom texto para partilhar aqui no blog. decidi fazê-lo hoje. porquê? por um lado porque hoje, 17 de maio, se assinala o dia internacional contra a homofobia, bifobia e transfobia (ou, em inglês: international day against homophobia, biphobia and transphobia). por outro, porque hoje o meu namorado faz anos.

   este último ponto é relevante porque ele irá apresentar-me à sua família amanhã, num jantar de aniversário que fará com família e amigos. namoramos há mais de um ano, e para que ele me possa apresentar à família (que sabe da nossa relação), teve de camuflar a minha presença levando mais uns quantos amigos para jantar. mais, para não chocar os seus membros familiares, nada de trocas de carinho durante a festa. não se quer cá dessas paneleirices.

   este texto serve precisamente para partilhar a minha experiência como jovem homem bissexual, assumido há pouco mais de um ano. mas porquê partilhar a minha experiência? bem, uma vez que tenho formação na área da psicologia, sinto que posso partilhar a minha experiência com recurso a alguns conceitos e dados científicos para suportar as ideias que apresento e, eventualmente, ajudar alguém que esteja desse lado.

   por questões de organização, decidi dividir este texto em duas partes. esta primeira vai focar-se na relevância de defender os direitos lgbt nos dias de hoje, não só em países onde esta comunidade é vista cada vez com menor preconceito (mas onde ainda há muito a fazer), mas ainda mais em países onde práticas lgbt são consideradas crime. a segunda parte focar-se-á na minha experiência pessoal, numa espécie de pergunta-resposta que pode esclarecer alguns detalhes. nestes textos, é possível que utilize os termos lgbt, lgbt+, lgbtqi+, ou outras variantes, mas em qualquer uma delas me refiro sempre à comunidade mais abrangente lgbtqi+.

   vou começar pela importância de discutir estes assuntos nos dias de hoje, numa sociedade ocidental. o facto de um casal heterossexual poder andar de mão dada na rua e poder trocar carinhos publicamente sem medo, é óptimo. porque sim, porque o amor é bonito de se ver, e porque não há mal nenhum em demonstrá-lo publicamente. então, porque é que um casal homossexual ou bissexual, não se sente à-vontade? o vídeo abaixo, publicado pela BBC The Social, apresenta o poema Time For Love e demonstra o que se passa em pleno 2018 na nossa sociedade. para alguém com uma orientação sexual considerada não normativa, é muitas vezes isto o que lhe passa pela cabeça quando quer despedir-se do(a) seu/sua companheiro(a) na rua.

 

 

   a luta pelos direitos lgbtiq+, a meu ver, defende uma sociedade onde as pessoas podem demonstrar o seu amor e afecto por outra pessoa sem medo do que os outros possam pensar. porque o amor entre duas pessoas, adultas e conscientes, é bonito, independentemente das suas orientações sexuais, independentemente dos seus géneros. (e crenças, e religiões, e etnias, etc.)

   a associação americana de psicologia, APA (american psychological association), apresenta um flyer em diversas línguas intitulado Answers to your questions: For a Better Understanding of Sexual Orientation & Homosexuality. este documento apresenta um resumo de dados empíricos em torno da orientação sexual que visam clarificar conceitos, e explicitar algumas consequências da discriminação na população lgbt+ (clica aqui para ler a versão em inglês, e aqui para a versão em espanhol). 

   muitas vezes, a bissexualidade não é considerada uma orientação sexual, mas antes uma "fase" ou "indecisão". esta negação da bissexualidade como orientação sexual estável é uma ideia que existe tanto na comunidade heterossexual, como na comunidade homossexual (por isso mesmo, as pessoas bissexuais podem sofrer discriminação não só de pessoas heterossexuais, como da própria comunidade lgbt que, supostamente, deveria acolhê-las. não é por acaso que pessoas bissexuais podem relatar pior estado de saúde do que gays, lésbicas e heterossexuais (ler aqui).

   a meu ver, o problema é a conceptualização da sexualidade. a maioria das pessoas vê a orientação sexual como algo dicotómico: ou se é heterossexual, ou se é homossexual. a ideia base é: ou se gosta de homens, ou se gosta de mulheres. por isso é que pode haver alguma confusão entre os conceitos de orientação sexual e identidade-género/sexo. no entanto, o dicionário, e a literatura científica são bastante claros. género corresponde ao conjunto de propriedades atribuídas social e culturalmente em relação ao sexo dos indivíduos; o sexo, por sua vez, é algo biológico que, embora maioritariamente dicotómico (XX - feminino ou XY - masculino), pode apresentar variações na natureza (e.g., XXY). a orientação sexual define-se pela atracção de uma pessoa face a outra, mas está, na sua concepção, intimamente relacionada com a identidade género. para nos enquadrarmos nalguma "categoria" de orientação sexual, deveremos identificar-nos (ou não) com um género, sabendo também o género da outra pessoa. disse "ou não", porque embora haja uma necessidade humana em quase todos os contextos para rotular e definir comportamentos, posturas, e atitudes, há pessoas que preferem ou não vêem necessidade de se rotularem.

   ainda que nem toda a gente veja a necessidade de rótulos, a conceptualização da orientação sexual é, como já referi, maioritariamente dicotómica. no entanto, modelos teóricos e conceptuais que traduzem a orientação sexual num contínuo parecem fazer muito mais sentido para entender a multiplicidade de orientações sexuais que existem. a título de exemplo, apresento duas figuras que ilustram esta ideia.

 

dicotomia.png

escala de cinzentos.png

   a orientação sexual não é só preta e branca. envolve outras divisões, numa escala de muitos tons de cinzento. a bissexualidade é, portanto, uma orientação sexual como as outras. aliás, o dicionário priberam define bissexual como "que ou quem tem atracção ou interesse sexual pelos dois sexos".

   esta atracção não tem de ser 50-50, mas pode sê-lo. as pessoas não são todas iguais e cada um pode sentir-se um cinzento escuro, ou um cinzento mais claro. numa conceptualização fluída da orientação sexual, há ainda autores que defendem que a sexualidade pode variar com o tempo. isto é, alguém que hoje se identifique como heterossexual, pode mais tarde definir-se como bi ou homossexual. ou vice-versa.

   esta conceptualização não me parece muito difícil de entender, na verdade. é como imaginar que em vez de preto e branco, estamos a falar de uma sandes mista. há quem só goste de fiambre, e apenas coma sandes sem queijo; há quem só goste de sandes de queijo e não pense nunca em comer fiambre; e há quem goste de uma sandes mista: e destas pessoas, há quem goste de sandes com muito fiambre e pouco queijo, e há quem goste de muito queijo e pouco fiambre. e para quem gostou de fiambre a vida inteira, mas agora experimentou queijo, e até gostou, isso não implica deixar de comer fiambre.

   ainda no que se refere à orientação sexual, e concretamente à bissexualidade, há um estudo português recentemente publicado cuja leitura aconselho: Identity Perceptions and Dynamics among Self-Identified Portuguese Bisexual Men: A Qualitative Study (Pereira, Aparício, Borges, & Nave, 2017). na sua introdução, o artigo esclarece alguns conceitos recorrendo a diferentes autores, que apresentam diferentes conceptualizações da orientação sexual.

   como em outros domínios da identidade (e.g. etnia, religião), o preconceito face à orientação sexual surge da ignorância e de ideias pré-concebidas. por exemplo, a confusão que existe entre identidade-género e orientação sexual pode estar na base de estereótipos como assumir que um homem considerado mais feminino é, indubitavelmente, homossexual. o raciocínio será mais ou menos este: o homem (visto biologicamente como tal) apresenta comportamentos frequentemente associados ao papel social de mulher (i.e. papéis de género mulher) e, por isso, só pode ser homossexual (orientação sexual inferida por comportamentos). como os conceitos de género e orientação sexual andam de mãos dadas, é muito fácil pensar que um homem que possua traços considerados muito masculinos (imaginem o homem-tipo "matulão") não possa ter uma orientação sexual que não heterossexual. este tipo de raciocínio pode estar, obviamente errado. tal como a sexualidade, o género pode ser considerado num contínuo, e por isso é perfeitamente possível encontrar homens gays que se identifiquem como muito másculos, ou homens hétero que se identifiquem como algo femininos (ainda que não se identifiquem como mulher).

   no fundo, a ideia que quero transmitir é a de que existe variância na orientação sexual. sempre existiu (alguém se lembra dos gregos e dos romanos?). e essa variância existe na natureza, e só pode ser encarada como natural. comportamentos homossexuais são encontrados noutras espécies. aliás, até a mudança de sexo pode ser encontrada noutras espécies (e.g. peixe-palhaço). o argumento de que estes comportamentos são contra-natura não faz sentido. as pessoas não aceitam a diferença maioritariamente por ignorância, e tendem a justificar-se com base nas suas crenças (que podem ter sido incutidas pela religião, ou pela sociedade em que a pessoa nasce).

   a crença de que amar alguém do mesmo sexo é errada pode levar a crimes de ódio. há países onde amar alguém do mesmo sexo, ou ser transgénero, pode matar. a justificação pode ser religiosa, ou política. custa-me imaginar uma realidade onde o simples facto de amar outra pessoa possa pôr em perigo a minha sobrevivência. isso é assustador. a propósito disso, consultem o movimento Where Love Is Illegal, que relata histórias de sobreviventes da perseguição anti-lgbt+ em todo o mundo (e acompanhem também a página no instagram).

   ai, mas portugal é um país desenvolvido, não há cá dessas coisas. mais, portugal foi o oitavo país no mundo a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (wikipedia). no entanto, para terem noção, em 2016, a ILGA Portugal (International Lesbian and Gay Association) recebeu, através do observatório da discriminação, 179 denúncias. há uma notícia do dn que podem ler, e o relatório completo do observatório da discriminação de 2016 pode ser consultado aqui. de acordo com um estudo de Pereira e Costa (2016), que avaliou o impacto da discriminação social na comunidade lgb portuguesa na saúde física e psicológica, pessoas bissexuais tinham mais probabilidade de reportar níveis mais altos de distress (stress com impacto negativo) do que homens gay. ainda de acordo com este estudo, cerca de um quinto dos participantes sentiu precisar esconder a sua orientação sexual para evitar situações de discriminação em diferentes contextos, sendo que perto de 20% dos inquiridos relatou ter sofrido abuso verbal, e cerca de 10% relatou ter sofrido ameaças escritas, assédio, e ameaças físicas. resumindo, o estigma social que ainda existe em portugal, e a discriminação que dele advém, podem ter um impacto negativo na saúde das pessoas lgb.

   em 2013, num estudo da agência europeia para os direitos fundamentais (European Fundamental Rights Agency), 47% das pessoas lgbti reportou ter sido alvo de discriminação/assédio/abuso no ano anterior ao inquérito. hoje, a comissão europeia partilhou na sua página online uma notícia que salienta o trabalho desenvolvido para a defesa dos direitos lgbti, e nem tudo parece estar perdido: de acordo com o eurobarómetro (2015), 71% dos cidadãos apoiam a igualdade de direitos para as pessoas lgbti.

   embora algumas coisas tenham melhorado, ainda há muito a fazer. os números indicam isso mesmo. quase metade dos europeus lgbti foi alvo de discriminação. é preciso mudar, é preciso fazer mais. como se faz isso? educando. divulgando informação.

   eu quero passear com o meu namorado de mão dada na rua, na praia, no rio. sem medo ou receio de que alguém com a mente fechada, que não consegue conceber a variância que existe na orientação sexual, nos possa insultar, ameaçar, ou agredir. porquê perpetuar estereótipos? porquê perpetuar violência desnecessária?

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às 18:22




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