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da (minha) bissexualidade 2/2

Pedro Simão Mendes, em 04.07.18

   este post é a continuação deste aqui, onde falei da necessidade de esclarecer alguns conceitos referentes à orientação sexual, e de lutar pelos direitos lgbtqi+ em pleno ano de 2018. nesta segunda parte, irei falar um pouco da minha experiência pessoal. fica à vontade para me colocar questões, comentando este post (no c. lá em baixo), ou enviando mensagem (rodapé do blogue). a ideia última desta partilha é poder ajudar alguém desse lado, que possa estar a passar por algo semelhante.

   nota: desculpem a extensão do texto. não tencionava que fosse tão longo, mas acabei por estar inspirado.

 

o coming out

   começo pelo meu coming out, realizado há pouco mais de um ano, porque me parece ser o acontecimento mais relevante para este tópico. antes disso, contudo, quero salientar necessidade de se fazer um coming out: vivemos numa sociedade heteronormativa (i.e., consideramos a heterossexualidade a norma, a regra), o que torna todos e todas os que fogem a essa norma diferentes. a propósito disto, partilho um clipe do filme love, simon (neste momento nos cinemas), sobre a "injustiça" de só os lgbtqi+ terem direito a fazer um coming out:

 

 

   esta cena torna-se claramente interessante pelo questionamento das nossas visões normativas. se a heterossexualidade deixasse de ser considerada a norma, a necessidade de fazer um coming out deixaria de existir. as pessoas aceitariam todas as orientações sexuais sem que isso lhes causasse qualquer confusão. no entanto, isso ainda é muito difícil de mudar. criamos expectativas acerca das pessoas que nos rodeiam desde cedo. a título de exemplo, há uns dias conversava com os meus pais sobre a minha sobrinha, que tem 7 meses, especificamente sobre o facto de ela passar muito tempo de pernas afastadas, e a minha irmã sexualizar isso de alguma forma, com medo que seja "uma previsão do futuro dela". falávamos do quão ridículo é sexualizar uma postura corporal de um bebé de 7 meses, e o facto de se considerar um problema uma mulher estar sempre de pernas abertas. claramente, a ideia que está detrás deste "receio" é a de que se uma mulher fizer muito sexo (sobretudo com parceiros diferentes) é considerada uma badalhoca. quando expus esta ideia subjacente, a minha mãe argumentou logo que a minha sobrinha até poderia encontrar logo um homem e casar. aqui, eu expus a ideia subjacente da heteronormatividade, dizendo "ou uma mulher", e acrescentando "ou nem casar", questionando acerca do papel de família tradicional, que claramente para a minha família é ainda a norma (homem, mulher, filhos), pode, contudo não ser o desejado por toda a gente. as pessoas podem decidir não casar, não ter filhos, e até ter mais do que um parceiro. mas para não fugir muito ao assunto, reparem apenas que face a uma mini-pessoa que ainda não faz muito mais do que se babar, já há expectativas acerca da sua orientação sexual: ela será, claramente, heterossexual. nem se esperaria outra coisa.

   claramente, para a minha família, não se esperaria outra coisa de mim. a minha necessidade de realizar o coming out, sobretudo para os meus pais, surgiu da minha vontade de poder levar o meu namorado lá a casa quando me apetecesse, porque aquela é também a casa onde vivo. sempre tive receio da reacção deles, confesso. sobretudo do meu pai, que considero uma pessoa violenta. ambos têm uma mente fechada, e parecem quase abominar o que é diferente. a minha mãe é uma católica fervorosa, e o meu pai um típico homem, se considerarmos a masculinidade hegemónica: bruto, adora futebol, bebe imensa cerveja, gosta de comer muita carne e comida picante, e abomina vegetais e comidas "gourmet", trata a mulher quase abaixo de cão, e objectifica as mulheres no geral (entre outros). e tudo o que foge deste padrão, é maricas, só pode ser maricas.

   posto isto, tive medo, na altura, que em última instância ele me expulsasse de casa quando soubesse que estava a namorar com um rapaz. é importante referir ainda que eu namorei sete anos e meio com uma rapariga. depois de ter terminado esta longa relação, não me ter envolvido abertamente com alguém poderia ser estranho para os meus pais. lembro-me de há muitos anos, estudava eu no secundário (numa nova escola, longe dos meus amigos), o meu pai me perguntar acerca de paixonetas que pudesse ter. quando disse que naquele momento, não gostava de ninguém, ele comentou quase murmurando "bem, se gostares de alguém, ao menos que seja de uma rapariga". lembro-me também que, quando víamos a série brothers and sisters, que passava na rtp2, e o casal gay que era retratado se beijava, ele soltava sempre um "que deus me perdoe", para tentar justificar o repúdio que sentia por odiar aqueles momentos. tanto tempo sem uma relação pode ter trazido à mente dos meus pais algum antigo receio que ia contra as suas expectativas de me ver casado com uma mulher, e com filhos.

   a decisão de finalmente contar aos meus pais veio depois de os meus amigos e de a minha irmã saberem, e me aconselharem a contar-lhes, porque seria melhor que soubessem por mim do que por outros. na verdade, houve um dia em que passeava com o meu namorado no parque do bom jesus, em braga, e no dia seguinte, a minha irmã perguntou-me se tinha estado com o meu namorado lá. pelos vistos, uma amiga de uma prima minha, que me conhecia, viu-me e abordou a minha prima no sentido de saber se eu era gay, ou se ela sabia que eu estaria a namorar com um rapaz. a minha prima disse que não sabia de nada, mas ainda assim comentou o assunto com a minha irmã. outra prima minha viu uma foto minha com o meu namorado no instagram, e abordou aquela minha outra prima. é isto. as pessoas falam umas sobre as outras. como se a minha vida sexual interessasse a quem quer que fosse. por isso, se as pessoas me viam, e comentavam, as notícias haveriam de chegar aos ouvidos dos meus pais.

   e eu queria contar-lhes, mas não fazia ideia de como fazê-lo. curiosamente, a juventude cruz vermelha de braga (onde faço voluntariado - agora pontual) estava na altura a fazer uma campanha nas redes sociais para a sensibilização e combate de estereótipos. achei que poderia fazer sentido participar. a ideia seria tirar uma foto sobre o estereótipo associado à frase "e quê?". foi uma campanha interessante, com algumas participações muito bem conseguidas. aconselho-vos a vê-la no facebook. achei que a minha participação poderia servir de mote para uma conversa. os meus pais iriam ver a minha foto no facebook, e iriam abordar o assunto. isto, pensei eu, facilitar-me-ia o trabalho.

 

Participação campanha #equê da JCV Braga

 

   mas não foi isso que aconteceu. mais de um mês se passou e eles sem nunca verem a foto. percebi que não faziam sequer ideia quando lhes falei da minha ideia de sair de casa e de ir viver com o meu melhor amigo. o meu pai disse "isso tem algum jeito? ainda vão pensar que é o roque e a amiga". claramente, estavam a leste, e essa abordagem demonstrava uma clara resistência à possibilidade de eu não ter uma orientação sexual normativa. depois de o meu pai sair uma noite, depois de jantar (ia ver o benfica a jogar no café), confrontei a minha mãe sobre isso (porque falaram sobre os meus amigos estarem a meter-me ideias na cabeça em frente à minha irmã), e a minha mãe confessou que o meu pai tinha receio de que eu pudesse ser homossexual. eu ri-me, e acabei por dizer algo como "podes dizer-lhe que fique descansado, então, porque não sou homossexual...sou bissexual".

 

como é que as pessoas reagiram?

   a minha mãe não queria acreditar. penso, aliás, que não entendeu. ainda sinto que ela não entende bem. começou logo a fazer perguntas, a tentar justificar aquele facto, ou a mudar o foco do assunto: "os anos todos com uma rapariga foram para disfarçar?", "tu estavas era a sentir-te sozinho, depois de teres terminado com ela...precisavas de atenção", "isso é só uma fase", "o que é que os teus amigos dizem disso?", e outras coisas que agora me esqueço. eu tentei apresentar dados científicos (sim, eu sou a pessoa que tenta argumentar com uma pessoa extremamente religiosa utilizando evidência científica), e argumentar que são várias coisas que podem explicar a existência natural de uma orientação sexual não normativa. tentar explicar o conceito de bissexualidade foi mais complicado. recorri à metáfora do preto e branco vs. escala de cinzentos. ela não percebeu: achava (e ainda deve achar) que sou homossexual. ela confessa que consegue perceber se uma mulher é bonita/atraente ou não, mas que nunca se sentiu atraída por uma, por isso o conceito de bissexualidade é-lhe muito confuso e, presumo, só associado a promiscuidade sexual. considerando a sua geração, e a educação que teve, é compreensível, mas ainda assim não desculpável.

   o meu pai era o mais crítico. não lhe contei directamente. a minha mãe ficou com esse fardo. nessa noite, depois de ter saído de casa para um café, voltei e tranquei a porta do quarto. tive genuinamente medo de que ele, ao saber, me quisesse espancar enquanto dormia, ou assim. quando no dia seguinte falei com a minha irmã sobre ter contado à minha mãe, ela disse-me que tinha conversado com o meu pai. acho que tremi um pouco, na altura. para minha grande surpresa, a grande preocupação do meu pai foi a de saber como é que eu haveria de arranjar emprego. foi isto. o grande drama para ele foi: as pessoas vão saber, vão recusar-lhe emprego. fiquei confuso, mas aliviado. mostrou claramente uma preocupação acima do julgamento, da desilusão. pelo contrário, e ao longo deste último ano, a minha mãe mostrou-se sempre mais resistente, e mais em negação (mas ela também acredita que eu sou católico, e que acredito em deus, apesar de já ter manifestado o meu ateísmo de todas as formas possíveis, por isso...).

   a minha irmã, que já sabia, aceitou muito bem, até porque eu lhe fui dando algumas dicas de forma gradual, para a preparar para a "revelação". agradeço-lhe muito, porque actuou como facilitadora das reacções da minha restante família.

   que me lembre, todos os meus amigos reagiram bem. tive algumas reacções pouco amigáveis de colegas de trabalho, na altura em que ainda trabalhava no continente, porque também eles eram um pouco ignorantes no geral. pensei que pudessem continuar a ser meus amigos, mas estava claramente enganado. a ignorância e o preconceito sobrepuseram-se neste caso. a primeira pessoa a quem contei foi o meu amigo t., o meu melhor amigo com quem poderia ir morar. também lhe agradeço todo o apoio. eventualmente, contei também à minha ex-namorada, que reagiu razoavelmente bem, embora estivéssemos já bastante afastados um do outro. ainda assim, ela sentiu como se a tivesse enganado durante todos estes anos. o que não é verdade, mas isso é outra história.

   levei o meu namorado ao casamento de uma prima minha, no ano passado, e as reacções não foram escandalosas. embora alguns familiares me tivessem pedido para não realizar trocas de carinho exageradas (associação com promiscuidade, talvez?), tudo o resto de forma ordeira e tranquila. mais tarde, contudo, no natal, tive a oportunidade de conversar com alguns primos meus sobre a minha bissexualidade, e pelo menos duas primas demonstraram imensa dificuldade (diria até impossibilidade) em compreender o conceito de bissexualidade. para elas (e, portanto, presumo que para o resto da família), eu era gay, que teve uma relação com uma rapariga para me esconder. essas minhas primas têm cursos superiores. são relativamente novas. uma não tem 30 anos, a outra tem 40. pelos vistos a educação não é tudo. tentei desconstruir conceitos com elas. não sinto que tenha resultado.

   contudo, a minha postura sempre foi, e continua a ser, não me importar com o que os outros pensam. já não quero saber, realmente. se estiver demasiado preocupado com o que os outros podem pensar, nunca andava de mão dada com ele na rua, ou ficaria sempre com receio de o beijar. não quero isso, por isso a postura é: que se foda o que os outros pensam de mim. 

 

quando é que soube que era bissexual?

   mais uma vez, heteronormatividade. reformulo a questão para os heterossexuais que me lêem: quando soubeste que eras heterossexual?

   acho que consigo datar a sensação de saber com alguma precisão: adolescência. talvez sempre tenha sabido. na verdade, não me lembro se quando era mais novo pensava nisto. sei que tive paixonetas na escola. sempre raparigas. por volta dos meus 15, 16 anos, talvez, surgiu também uma certa curiosidade pelo outro lado. associo esta bi-curiosidade ao meu secundário. nessa altura, um amigo meu dormiu em minha casa depois de uma festa de aniversário, na minha cama. ele namorava com uma rapariga, mas deu-me um beijo junto ao canto dos lábios. passados uns anos, quando o abordei acerca do assunto, ele disse não se recordar de nada disso. mas foi engraçado. eu já tinha beijado várias raparigas, na altura. nunca namorara até então, porque nunca tive o perfil pelo qual as miúdas adolescentes se apaixonam: idiotas com um físico atraente.

   sei que já apreciava rapazes e raparigas, mas nunca me via a ter uma relação com um rapaz. em vez disso, e porque achava também que em parte ser-se gay poderia ser algo errado (analiso eu em retrospectiva que poderia pensar assim), brincava com a situação. lembro-me de comentar com amigos, e com a minha irmã que dava para os dois lados. era uma brincadeira estúpida, sobretudo depois de ter começado a namorar com ela. ela não achava piada à brincadeira (o que é natural), mas eu vejo agora que era um adolescente muito imaturo, e parvo. espero que hoje ela me tenha perdoado pela jovem estupidez que me assolava.

   comecei a relação com ela em 2008, e desde então, nunca senti necessidade de estar com outra pessoa, fosse rapariga ou rapaz. amei-a verdadeiramente, em parte porque cresci muito com ela. e hoje não me arrependo de nenhuma escolha que tenha feito. em 2013 estivemos afastados uns meses e foi nessa altura que soube que era bissexual. depois de ter percebido que a nossa relação tivera terminado, chorei baba e ranho, e decidi fazer uma introspecção, porque tudo isto se passou durante uma crise identitária que me assolou também ao nível estudantil (o que estava eu a fazer em Psicologia?). nessa altura, levei a minha curiosidade um pouco mais longe e consegui perceber embora gostasse de raparigas, sentia alguma atracção por rapazes também. nunca revelei isto a ninguém, no entanto.

   eu e ela voltámos algum tempo mais tarde, e decidimos retomar a relação com outra postura, o que resultou por mais três anos. estes últimos anos de relação foram desafiantes por algumas razões, mas o meu sentimento não mudara, e continuei a amá-la, sem necessidade de estar com outra pessoa. insisto nesta ideia, porque muita gente associa a bissexualidade à necessidade de estar com homens e mulheres, mas isso não é, de todo, verdade. tal como numa relação heterossexual, um homem pode não deixar de achar atraentes outras mulheres que não a sua parceira (ou uma mulher pode continuar a achar outros homens atraentes), também eu quando estou numa relação com uma rapariga, posso continuar a achar outras raparigas, e outros rapazes atraentes... ou quando estou com um rapaz, posso continuar a achar outros rapazes e raparigas atraentes. a questão aqui é a monogamia. se estou numa relação monogâmica, é esse o compromisso que eu assumo.

 

alguma vez fui vítima de discriminação por ser bissexual?

   sim. mas não considero que tenha sido algo muito grave, e sinto até ter sorte se considerarmos as estatísticas que falei no primeiro post acerca disto. ainda há muita violência contra os grupos lgbt.

   vivo em braga, uma cidade extremamente católica e conservadora. no entanto, esta é a conhecida pela cidade dos três p's: padres, putas e paneleiros. todos vêem os padres, todos sabem onde encontrar as putas, mas ninguém vê os paneleiros. pelo menos nas ruas. existe uma invisibilidade que é escolhida pela própria comunidade lgbt. aliás, este foi o mote da 6ª marcha pelos direitos lgbt+ de braga: "cidade do silêncio: chega de invisibilidades, basta de violências", a primeir marcha em que participei.

   aqui em braga (como noutras cidades portuguesas) a violência verbal deve ser a mais frequente. por exemplo, durante a marcha lgbt, ouvi uma senhora idosa a gritar "seus porcos! badalhocos!" vezes sem conta. noutras ocasiões em que passeio de mão dada com o meu namorado, é regra vislumbrar os olhares das pessoas a percorrerem-nos de alto a baixo, com o foco atencional nas nossas mãos. nestas situações, normalmente acontece uma de duas coisas: ou a pessoa fica atrapalhada porque não quer julgar, e tenta desviar o olhar rapidamente; ou continua a olhar depois de passar por nós, com um claro ar de reprovação. usualmente, eu e ele rimo-nos, sobretudo na primeira situação. também por diversas ocasiões, há comentários que nos fazem, ou insultos do género "paneleiros!" ou "gays" (embora gritar uma orientação sexual não seja obviamente um insulto per se, nota-se sempre a intenção ofensiva).

   lembro-me de uma situação recente, que se passou em maio, depois do jantar de aniversário da namorada do t., e que coincidiu com a braga romana. passeávamos no centro histórico (eu e ele, o t. e a namorada, e mais um casal de amigos da namorada do t.). um grupo de marmanjos passou por nós, e alguns deles grunhiram alto uns "uh", e uns "ei", mencionando também a palavra "gays" e "beijo". não me recordo ao certo. estas situações causam sobretudo desconforto. não posso passear na rua? o desconforto, e alguma vergonha alheia foram sentidos também pelo t. e namorada. sentiram-se admirados por aquilo acontecer em 2018, sobretudo vindo de uns jovens adolescentes. talvez achassem que já vivemos numa sociedade de mentalidades muito abertas. só que não. na altura, ele disse uma coisa curiosa, que me fez todo o sentido: se cada um daqueles jovens tivesse passado por nós sozinho, em vez de em grupo, talvez não tivesse dito nada. as pessoas podem ser muito idiotas, mas em grupo, isso nota-se mais.

   por fim, como já referi em cima, há a dificuldade das pessoas perceberem a noção de bissexualidade, e a negarem como orientação sexual válida: ou é fiambre ou é queijo. isso é o que me frustra mais diariamente. pessoas da minha família, colegas de trabalho (da área da psicologia!), e amigos: muitos deles chegaram a afirmar que na verdade eu sou homossexual por estar agora com um rapaz. foda-se, pessoas. quem sabe o que sinto e como me identifico sou eu. o que vocês acham não me interessa, e torna-se extremamente irritante estar a repetir que eu sou bissexual. sinto-me simultaneamente atraído por mulheres e por homens. não acho assim tão difícil de perceber. se para vocês é, lamento. confesso que muitas vezes me apetece dizer-lhes "tu identificas-te como inteligente, mas claramente és um(a) idiota".

 

como foi a primeira abordagem com o outro lado?

   numa palavra? estranha, talvez. depois de ter namorado quase oito anos, não estava propriamente à procura de me envolver seriamente com quem quer que fosse. pensei que tentar encontrar-me enquanto explorava a minha sexualidade pudesse ser o melhor para mim. tive a oportunidade de me envolver com um rapaz pela primeira vez de forma directa, esclarecida, e simples, porque já o conhecia. mas claro que tinha alguns receios. era tudo muito novo. foi estranho pela novidade, porque tudo o que é novo pode parecer estranho.

   existe aquele preconceito associado ao mundo dos homens gay que eu também partilhava: há mais promiscuidade. a minha experiência de tentar descobrir parceiros/as que não quisessem uma relação séria traduziu um pouco isso. o tinder permitiu-me encontrar tanto rapazes como raparigas, mas senti que a abordagem sempre foi mais fácil com os rapazes. eram sempre mais directos. penso que a explicação se pode prender com o estereótipo ainda presente de que uma rapariga que quer algo sem um compromisso só pode ser uma pêga. o que é completamente errado, mas pode limitar a abordagem das raparigas mesmo neste tipo de aplicações. isso, claro, para pôr de parte a outra possível explicação: as raparigas no geral não me acham atraente.

   quando comecei esta exploração não me imaginava ser capaz de desenvolver sentimentos por um rapaz, nem sequer de imaginar-me a namorar com um. as minhas expectativas seriam de que tudo seria uma abordagem mais carnal. mas claramente não foi isso que aconteceu. com ele, houve química desde logo, e foi isso que permitiu partir para um diálogo que nos desse a conhecer, dando também espaço para que os sentimentos crescessem. fico contente que as expectativas tenham sido contrariadas, e que ele me tenha dado a conhecer o lado naturalmente emocional que pode surgir entre dois seres humanos (independentemento do seu sexo ou do seu género).

 

   hoje, sinto-me feliz ao lado dele e, mais uma vez, não sinto a necessidade de estar com outra pessoa. e sim, continuo a apreciar homens e mulheres, sentindo-me atraído por ambos os sexos. não continuem a negar a existência da bissexualidade, por favor!

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